As coisas como são (!?)

19 de Novembro de 2010, 0 comentário
Olá amigos!


A Bionúcleo, através de sua equipe de consultores, tem atuado ao longo de sua jornada em vários locais do país em projetos de planejamento para o “desenvolvimento”, sempre sob a alcunha do turismo sustentável, ecoturismo e outros rótulos que pregam o conceito da tão sonhada sustentabilidade.


Eu, através dessas experiências aos poucos estou comprovando que o que há entre o que se planeja estrategicamente nos altos escalões de instituições públicas e privadas e a realidade é uma grande distância.


Muitos são os projetos e programas que tem o nobre objetivo de diminuir a desigualdade e promover o desenvolvimento das localidades com o mínimo de impacto possível. Ocorre é que a realidade das localidades está aquém do entendimento necessário para que projetos nesse sentido possam ser implementados com sucesso. Digo isso porque quando chagamos até as pessoas e contemplamos a realidade de seu dia-a-dia é que percebemos o quanto o discurso de sustentabilidade e de boas práticas preconizados por este conceito está ausente da realidade das necessidades diárias básicas das pessoas.



Como vamos cobrar entendimento do que sejam as boas práticas ambientais em sociedades que até hoje vivem como coletoras, marginalizadas a um crescimento desordenado onde as diferenças de classes são visíveis a quilômetros de distância. O turismo é uma atividade que, se ocorrer de forma desordenada (e é assim na maioria dos lugares) promove, escancara, potencializa essas diferenças. Só não vê quem não quer ou é obtuso o bastante para não enxergar isso. Preste atenção quando você visitar os próximos destinos turísticos de sua viagem. Olhe para a comunidade local, tente identificá-la e veja como vive e o que o turismo ali praticado está provocando.



Não estou dizendo que o turismo é o grande vilão disso tudo. Estou apenas dando um testemunho do que o abandono e a falta de oportunidade podem causar na visão de um profissional que atua mais especificamente com turismo.


Estamos trabalhando em Projetos de Planejamento Estratégico em algumas regiões frágeis tanto no que diz respeito às características ambientais naturais quanto às questões socioeconômicas. Eu atuei no município de Maraú/BA, onde se pretende desenvolver o turismo dentro do conceito de Ecoturismo de Base Comunitária e o que se vê na realidade do local é exatamente isso que descrevi acima. As pessoas estão marginalizadas a um turismo que aconteceu. Nada foi planejado!
O trabalho de chamar essas pessoas da comunidade a fazerem parte de um contexto de planejamento onde elas seriam os principais atores do planejamento do desenvolvimento turístico pretendido torna-se árduo e por vezes frustrante.


Quando nos deparamos com realidades tão distintas em um espaço geográfico tão pequeno é que realmente podemos sentir, vivenciar as diferenças sociais. As pessoas desconhecem sua própria realidade. É impressionante ver que numa mesma região as pessoas moram em mansões, andam de Iates e Veleiros enquanto outras têm que entrar no mangue, coletar os caranguejos para alimentar sua família em uma atividade totalmente de subsistência. Todos convivem como se essas diferenças, não fizessem diferença. Uma hora isso acaba, pois é uma situação que julgo insustentável.


Considerando o turismo, temos localidades como Maraú, que são de uma beleza ímpar, com potencial de desenvolvimento de um turismo que possa beneficiar a todos. Para tanto precisamos de planejamento correto, de acordo com as necessidades das comunidades locais e para que haja isso faz-se necessário trazer essas comunidades para dentro desses processos de planejamento. O desafio maior é fazer com que pessoas simples e limitadas de conhecimento entendam a importância disso tudo. É urgente que haja um respeito maior a educação de qualidade nesse país. Assim, a compreensão de processos dessa natureza pode tornar-se mais factível.


A realidade é que, a maioria das pessoas que estão explorando turisticamente essas localidades não são os locais e os que não são locais não se preocupam com o local, pois, não é deles. Temos pessoas de vários lugares do Brasil e do Mundo que chegam nessas localidades e se tornam os principais atores do processo de crescimento do turismo.





Como convencer as comunidades autóctones, com suas limitações, de que eles sim são os verdadeiros atores e que devem participar dos processos de planejamento de suas localidades e comunidades. Eles não existem para este processo na forma como ele está estabelecido. Sentem isso e preferem ficar em seu lugar, quietinho, vivendo como sempre viveram, tranqüilos sem sonharem com outros mundos. E os outros mundos, aos poucos (ou nem tanto) vão lhes engolindo...destruindo...é assim que é!