Sabe esses dias em que você navega pela internet buscando artigos e textos interessantes sobre assuntos diversos. Ocorre que há algum tempo encontrei o site do Sr. Polan Lacki que pesquisa, escreve e desenvolve projetos tratando dos problemas dos agricultores e do homem do campo (pobre) de forma geral. Achei muito interessante e a partir de então me cadastrei para receber em meu e-mail seus artigos. Hoje recebi um artigo e resolvi publicar aqui no nosso blog por achar bastante interessante a forma como ele vê e principalmente a forma de solucionar diversos dos problemas tão comuns na produção rural em nosso paÃÂs.
Primeiramente vou falar um pouco sobre quem é Polan Lacki e posteriormente segue o referido artigo.
Polan Lacki nasceu em Foz do Iguaçu Paraná no dia 18 de março de 1941. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro em 1964. Iniciou as suas atividades profissionais como extensionista e dirigente dos serviços de extensão rural do Paraná e do PiauÃÂ.No Paraná foi extensionista local em Marechal Cândido Rondon e Diretor do Departamento Administrativo e Financeiro da então ACARPA. No Piauàocupou o cargo de especialista em crédito rural e cooperativismo e durante 4 anos exerceu o cargo de Secretário Executivo da então ANCAR-PiauÃÂ. Posteriormente e durante 23 anos trabalhou na Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação FAO-ONU como especialista em educação agrÃÂcola e extensão rural. Durante a sua permanência neste organismo internacional apoiou tecnicamente as faculdades de ciências agrárias, as escolas agrotécnicas e os serviços de extensão rural de 19 paÃÂses da América Latina.
É autor e/ou co-autor de 29 textos, monografias e livros sobre educação agrÃÂcola, extensão rural, agricultura familiar e desenvolvimento rural.Todos estes seus escritos estão incluÃÂdos na seção "Artigos" da Página web http://www.polanlacki.com.br. Na seção "Quem é Polan Lacki" desta mesma Página está ampliado este resumo do seu currÃÂculo e está descrito o seu histórico de vida e de trabalho. Também é autor do "livro dos pobres rurais" denominado Desenvolvimento Agropecuário: da dependência ao protagonismo do agricultor, o qual está disponÃÂvel no seu segundo site http://www.polanlacki.com.br/agrobr.
Embora oficialmente já esteja aposentado, continua exercendo atividades relacionadas com a educação e a extensão rural. Atualmente coordena uma rede eletrônica de discussão sobre o seguinte tema: O quê e como fazer para que os agricultores, pequenos e pobres, possam fazer uma agricultura rentável e competitiva, por mais escassos que sejam os seus recursos financeiros, por mais adversas que sejam as suas condições fÃÂsico-produtivas e por mais inoperantes que sejam os seus respectivos governos. Estão incluÃÂdas na referida rede 153.000 pessoas e instituições de todos os paÃÂses da América Latina. As criticas e contribuições que recebe dos integrantes desta Rede alimentam e retro-alimentam as suas propostas para viabilizar economicamente os pequenos produtores rurais, através do mais importante e estratégico insumo do mundo moderno que é o conhecimento.
_______
Estamos "paralisando" os agricultores com diagnósticos equivocados e com soluções demagógicas
Polan Lacki
É profundamente lamentável que na América Latina tenhamos perdido mais de 50 anos elaborando diagnósticos equivocados sobre a problemática rural e dizendo aos agricultores que os seguintes fatores exógenos foram ou continuam sendo as principais causas dos seus problemas:
· o colonialismo e o imperialismo
· as polÃÂticas de ajuste "impostas" pelo FMI e pelo Banco Mundial
· neoliberalismo, a globalização e a OMC
· a falta de polÃÂticas, de garantias de comercialização, de créditos abundantes e baratos, de refinanciamento e perdão das dÃÂvidas
· a falta de subsÃÂdios internos e de medidas de proteção contra a importação de produtos agrÃÂcolas
· o valor do dólar e o preço dos pedágios
· os subsÃÂdios e medidas protecionistas que os paÃÂses ricos concedem aos seus agricultores.
Essas afirmações contêm algumas verdades e são muito úteis em termos eleitorais. No entanto:
a) Será que as causas elimináveis dos problemas dos agricultores e as soluções viáveis de serem concretizadas são realmente as acima mencionadas? Ou será que os "inimigos externos" são uma excelente justificativa e escusa para ocultar a nossa incapacidade de eliminarmos, nós mesmos, os nossos "inimigos internos", utilizando as ferramentas da tecnologia, da administração e organização rural e do profissionalismo?
Primeiramente vou falar um pouco sobre quem é Polan Lacki e posteriormente segue o referido artigo.
Polan Lacki nasceu em Foz do Iguaçu Paraná no dia 18 de março de 1941. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro em 1964. Iniciou as suas atividades profissionais como extensionista e dirigente dos serviços de extensão rural do Paraná e do PiauÃÂ.No Paraná foi extensionista local em Marechal Cândido Rondon e Diretor do Departamento Administrativo e Financeiro da então ACARPA. No Piauàocupou o cargo de especialista em crédito rural e cooperativismo e durante 4 anos exerceu o cargo de Secretário Executivo da então ANCAR-PiauÃÂ. Posteriormente e durante 23 anos trabalhou na Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação FAO-ONU como especialista em educação agrÃÂcola e extensão rural. Durante a sua permanência neste organismo internacional apoiou tecnicamente as faculdades de ciências agrárias, as escolas agrotécnicas e os serviços de extensão rural de 19 paÃÂses da América Latina.
É autor e/ou co-autor de 29 textos, monografias e livros sobre educação agrÃÂcola, extensão rural, agricultura familiar e desenvolvimento rural.Todos estes seus escritos estão incluÃÂdos na seção "Artigos" da Página web http://www.polanlacki.com.br. Na seção "Quem é Polan Lacki" desta mesma Página está ampliado este resumo do seu currÃÂculo e está descrito o seu histórico de vida e de trabalho. Também é autor do "livro dos pobres rurais" denominado Desenvolvimento Agropecuário: da dependência ao protagonismo do agricultor, o qual está disponÃÂvel no seu segundo site http://www.polanlacki.com.br/agrobr.
Embora oficialmente já esteja aposentado, continua exercendo atividades relacionadas com a educação e a extensão rural. Atualmente coordena uma rede eletrônica de discussão sobre o seguinte tema: O quê e como fazer para que os agricultores, pequenos e pobres, possam fazer uma agricultura rentável e competitiva, por mais escassos que sejam os seus recursos financeiros, por mais adversas que sejam as suas condições fÃÂsico-produtivas e por mais inoperantes que sejam os seus respectivos governos. Estão incluÃÂdas na referida rede 153.000 pessoas e instituições de todos os paÃÂses da América Latina. As criticas e contribuições que recebe dos integrantes desta Rede alimentam e retro-alimentam as suas propostas para viabilizar economicamente os pequenos produtores rurais, através do mais importante e estratégico insumo do mundo moderno que é o conhecimento.
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Estamos "paralisando" os agricultores com diagnósticos equivocados e com soluções demagógicas
Polan Lacki
É profundamente lamentável que na América Latina tenhamos perdido mais de 50 anos elaborando diagnósticos equivocados sobre a problemática rural e dizendo aos agricultores que os seguintes fatores exógenos foram ou continuam sendo as principais causas dos seus problemas:
· o colonialismo e o imperialismo
· as polÃÂticas de ajuste "impostas" pelo FMI e pelo Banco Mundial
· neoliberalismo, a globalização e a OMC
· a falta de polÃÂticas, de garantias de comercialização, de créditos abundantes e baratos, de refinanciamento e perdão das dÃÂvidas
· a falta de subsÃÂdios internos e de medidas de proteção contra a importação de produtos agrÃÂcolas
· o valor do dólar e o preço dos pedágios
· os subsÃÂdios e medidas protecionistas que os paÃÂses ricos concedem aos seus agricultores.
Essas afirmações contêm algumas verdades e são muito úteis em termos eleitorais. No entanto:
a) Será que as causas elimináveis dos problemas dos agricultores e as soluções viáveis de serem concretizadas são realmente as acima mencionadas? Ou será que os "inimigos externos" são uma excelente justificativa e escusa para ocultar a nossa incapacidade de eliminarmos, nós mesmos, os nossos "inimigos internos", utilizando as ferramentas da tecnologia, da administração e organização rural e do profissionalismo?
b) Quando os agricultores elegem os seus lÃÂderes rurais e as autoridades do paÃÂs, será que o fazem para que eles continuem, ad infinitum, identificando supostos culpáveis e propondo soluções utópicas? Ou o fazem para que eles adotem medidas realistas que possam ser levadas àprática, mesmo que não seja possÃÂvel eliminar aqueles fatores externos?
c) Quando os agricultores, através dos seus impostos, pagam os salários dos funcionários das instituições de apoio àagricultura, será que o fazem para que tais instituições continuem elaborando diagnósticos sobre as causas remotas, no tempo e no espaço, do "por que" somos subdesenvolvidos? Ou o fazem na expectativa de que essas instituições se tornem muito mais eficazes na correção das ineficiências do negócio agrÃÂcola?
d) Não será que antes de atribuir a culpa a terceiros, deverÃÂamos " fazer os deveres de casa", como, por exemplo, corrigir as distorções descritas a seguir, pois estas sim podem ser evitadas ou eliminadas, independente do que aconteça ou deixe de acontecer com aqueles "inimigos externos"?
1. Em cada hectare de terra os agricultores latino-americanos produzem em média: 3189 kgs de arroz; 712 kgs de feijão; 3288 kgs de milho; 13.561 kgs de batata inglesa; 2090 kgs de trigo. Não busquemos "bodes expiatórios"; estes baixÃÂssimos rendimentos são conseqüência de erros primários, facilmente corrigÃÂveis, como, por exemplo: utilizar sementes geneticamente erodidas ou contaminadas com patógenos, não fazer teste de germinação, não inocular as sementes das leguminosas, não regular adequadamente a plantadeira, não fazer análise de solo, não adotar a rotação e a diversificação de culturas, não eliminar as ervas daninhas antes que elas prejudiquem as culturas, não evitar perdas antes e durante a colheita, etc. Na pecuária, os produtores obtêm, em média, menos de 1200 litros de leite por vaca/ano; a primeira prenhez ocorre aos 33 meses de vida, podendo ocorrer antes dos 19 meses; o intervalo entre partos é de 22 meses, podendo ser de 13 meses; a taxa de desfrute é de 19%, o rendimento é de apenas 60 quilos de carne por hectare/ano e os novilhos atingem o peso de abate aos 50 meses de idade, podendo fazê-lo antes dos 25. Similar ao caso da agricultura, esses indicadores zootécnicos são o reflexo da não-adoção de práticas também elementares, como, por exemplo: falta de cuidados no parto, inclusive proteção contra as intempéries, não-desinfecção do umbigo, natalidade; a administração do colostro nas primeiras horas de vida, não-adoção de medidas de prevenção contra enfermidades e parasitos, falta de higiene nas instalações e na ordenha, perdas de cios, falta de registros produtivos e reprodutivos, e, muito especialmente, porque os animais geralmente estão sub ou mal alimentados, durante longos perÃÂodos do ano; a inadequada ou insuficiente alimentação é, de longe, a causa mais importante do modesto desempenho da nossa pecuária. Ao contrário do que se costuma afirmar, esses erros não se devem aos supostos fatores exógenos mencionados no inÃÂcio deste artigo; eles se devem ao fato concreto de que a maioria dos produtores - não por culpa deles, evidentemente - não possui os conhecimentos elementares, tão necessários para evitá-los ou corrigi-los.
2. Muitos agricultores ainda adotam a mono ou bicultura e, conseqüentemente, obtêm receitas apenas uma ou duas vezes ao ano. É por esta razão, e não por falta de decisões polÃÂticas, que se tornam tão dependentes do crédito rural; se diversificassem a produção e a integrassem com a produção pecuária também diversificada, poderiam produzir alimentos "balanceados" para a famÃÂlia e para os animais, além de ingressos em dinheiro, durante os 365 dias do ano. Com esta medida, tão elementar, porém altamente eficaz, tornar-se-iam menos dependentes do crédito rural e menos vulneráveis a outros fatores externos (clima, mercado, pragas , etc.). Soluções pragmáticas, similares àdiversificação produtiva, deveriam ser enfatizadas nas escolas agrotécnicas e faculdades de ciências agrárias, em vez de esperar que os economistas do Banco Central ou os parlamentares do Congresso Nacional resolvam os problemas econômicos dos agricultores. É preferÃÂvel eliminar esta causa da excessiva dependência do crédito do que aliviar os seus sintomas ou conseqüências, utilizando artificialismos compensadores da falta de diversificação.
3. Paradoxalmente, enquanto se queixam da insuficiência de recursos, muitos agricultores superdimensionam e mantêm na ociosidade elevados investimentos em terra, maquinária e instalações que produzem com baixos rendimentos e permanecem sub-utilizadas durante uma grande parte do ano.Se os produtores formassem grupos para executar e utilizar em conjunto alguns investimentos (aqueles que são de alto custo e que são utilizados com baixa freqüência), poderiam reduzir esta distorção que incrementa, desnecessariamente, os seus custos fixos. Com os recursos obtidos graças a tal "enxugamento", poderiam adquirir os insumos que necessitam (mas que deixam de comprar porque não dispõem de dinheiro) para aumentar os rendimentos e reduzir os custos por quilo produzido. Idêntico problema ocorre com os animais; os pecuaristas geralmente possuem uma excessiva quantidade de animais mal alimentados, em vez de tê-los em menor número, porém bem alimentados e, conseqüentemente, mais produtivos. Estas sub-utilizações não ocorrem por falta de decisões polÃÂticas nem por culpa do colonialismo ou do neoliberalismo, mas sim porque os agricultores não foram formados nem capacitados para praticar o associativismo, intensificar a produção e melhorar a administração das suas propriedades; outra vez, a causa do problema e a sua solução não estão no Ministério da Fazenda, mas sim no sistema de educação rural, formal e não formal.
4. Os produtores rurais mais pobres são os que produzem espécies de baixa densidade econômica que, coincidentemente, são consumidas pelas famÃÂlias mais pobres, como, por exemplo: batata inglesa, mandioca, batata doce, abóbora, chuchu, milho, arroz, feijão. Produzindo estas espécies consumidas pelos pobres, mesmo que os agricultores fossem eficientes e obtivessem altos rendimentos por hectare, teriam ganhos muito limitados, pois essas culturas, para proporcionarem uma melhor renda, necessitam de uma grande escala de produção, vantagem que os pequenos não possuem. Conseqüentemente, é necessário capacitá-los para que produzam alimentos diferenciados, mais sofisticados e de maio r densidade econômica, como, por exemplo: produtos orgânicos ou hidropônicos, hortaliças cultivadas sob plástico para vendê-las fora de estação, frutas, flores e plantas ornamentais, cogumelos, aspargos e outras hortaliças mais nobres, mudas de hortaliças e de fruteiras, animais menores, mel, peixes, frangos e ovos "caipiras", condimentos, plantas medicinais, etc.; e, oxalá, vendê-los com algum valor agregado. Com tal reconversão produtiva, deixariam de vender muito ganhando pouco e passariam a vender pouco ganhando muito. A correção desta ineficiência deverá ser ensinada pelos agrônomos e zootecnistas diretamente nas propriedades rurais, ao invés de continuar pedindo que os economistas do Banco Mundial e do FMI a resolvam lá em Washington.
5 e 6. Tanto na aquisição dos insumos como na venda dos seus excedentes, os agricultores atuam individualmente. É devido a esta falta de espÃÂrito e exercÃÂcio associativo, e não tanto por culpa da globalização ou do FMI, que eles adotam procedimentos totalmente contrários aos seus interesses, como, por exemplo: na compra dos insumos os adquirem no varejo, com alto valor agregado, do último elo da cadeia de intermediação; entretanto, na comercialização dos seus excedentes, dão um giro de 180 graus e fazem exatamente o contrário, pois os vendem no atacado, sem nenhum valor agregado, ao primeiro elo da cadeia de intermediação.O espÃÂrito de cooperação e solidariedade e a prática do associativismo - necessários para que os próprios agricultores possam reverter essa dupla distorção - é necessário ensinar às crianças nas escolas fundamentais rurais; em vez de continuar culpando a OMC ou aos paÃÂses ricos que subsidiam e protegem os seus agricultores. Sejamos objetivos e realistas, os elevados preços que os agricultores pagam na compra dos insumos e os baixos preços que obtém na venda das suas colheitas se devem, em grande parte, àexcessiva intermediação; e esta, por sua vez, se deve ao fato de que os nossos agricultores não foram formados nem capacitados para assumir uma maior fatia da etapa rica do agronegócio. Em vez de mendigar que os supermercados, as agroindústrias e os intermediários paguem preços mais justos pelas suas colheitas, os agricultores deve riam exigir que o sistema educativo rural ensine, a eles e aos seus filhos, como poderiam organizar-se para diminuir a excessiva intermediação na venda dos seus produtos.
Esses seis são os principais problemas, solucionáveis pelos próprios agricultores, que com maior freqüência afetam a grande maioria deles; essas são as principais causas elimináveis que provocam esses problemas e essas são as soluções possÃÂveis de ser adotadas. É fácil constatar e concluir que os problemas, as causas e as soluções estão principalmente nas propriedades e nas comunidades rurais, nos três nÃÂveis da educação agrÃÂcola formal e nos serviços de extensão rural. Não vale a pena perder demasiado tempo buscando-os em Bruxelas, Genebra, Washington ou Tóquio. Se o sistema educativo proporcionasse às famÃÂlias rurais, tão somente, as competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) de que necessitam para corrigir apenas estas seis ineficiências, elas mesmas o fariam, reduziriam os custos por quilo produzido, melhorariam a qualidade e incorporariam valor às colheitas, incrementariam os preços de venda dos seus excedentes, se auto-abasteceriam de alimentos, para a famÃÂlia e para os animais, e obteriam receitas durante os 365 dias do ano. Se fizessem tão somente isto, teriam maior rentabilidade, seriam mais competitivos; e, além do mais, se tornariam muito menos dependentes da ajuda dos seus governos e muito menos vulneráveis aos fatores externos que eles não podem controlar (clima, mercado, falta de crédito, subsÃÂdios e protecionismo dos paÃÂses ricos, etc). Enfim, seus principais problemas estariam resolvidos, por eles mesmos, independente do que decidam ou deixem de decidir os seus próprios governos, os governos dos paÃÂses ricos, os organismos internacionais, etc. Se é assim, por que não fazê-lo? Por que continuar "paralisando" as iniciativas dos agricultores em vez de estimular o seu protagonismo?
1. Em cada hectare de terra os agricultores latino-americanos produzem em média: 3189 kgs de arroz; 712 kgs de feijão; 3288 kgs de milho; 13.561 kgs de batata inglesa; 2090 kgs de trigo. Não busquemos "bodes expiatórios"; estes baixÃÂssimos rendimentos são conseqüência de erros primários, facilmente corrigÃÂveis, como, por exemplo: utilizar sementes geneticamente erodidas ou contaminadas com patógenos, não fazer teste de germinação, não inocular as sementes das leguminosas, não regular adequadamente a plantadeira, não fazer análise de solo, não adotar a rotação e a diversificação de culturas, não eliminar as ervas daninhas antes que elas prejudiquem as culturas, não evitar perdas antes e durante a colheita, etc. Na pecuária, os produtores obtêm, em média, menos de 1200 litros de leite por vaca/ano; a primeira prenhez ocorre aos 33 meses de vida, podendo ocorrer antes dos 19 meses; o intervalo entre partos é de 22 meses, podendo ser de 13 meses; a taxa de desfrute é de 19%, o rendimento é de apenas 60 quilos de carne por hectare/ano e os novilhos atingem o peso de abate aos 50 meses de idade, podendo fazê-lo antes dos 25. Similar ao caso da agricultura, esses indicadores zootécnicos são o reflexo da não-adoção de práticas também elementares, como, por exemplo: falta de cuidados no parto, inclusive proteção contra as intempéries, não-desinfecção do umbigo, natalidade; a administração do colostro nas primeiras horas de vida, não-adoção de medidas de prevenção contra enfermidades e parasitos, falta de higiene nas instalações e na ordenha, perdas de cios, falta de registros produtivos e reprodutivos, e, muito especialmente, porque os animais geralmente estão sub ou mal alimentados, durante longos perÃÂodos do ano; a inadequada ou insuficiente alimentação é, de longe, a causa mais importante do modesto desempenho da nossa pecuária. Ao contrário do que se costuma afirmar, esses erros não se devem aos supostos fatores exógenos mencionados no inÃÂcio deste artigo; eles se devem ao fato concreto de que a maioria dos produtores - não por culpa deles, evidentemente - não possui os conhecimentos elementares, tão necessários para evitá-los ou corrigi-los.
2. Muitos agricultores ainda adotam a mono ou bicultura e, conseqüentemente, obtêm receitas apenas uma ou duas vezes ao ano. É por esta razão, e não por falta de decisões polÃÂticas, que se tornam tão dependentes do crédito rural; se diversificassem a produção e a integrassem com a produção pecuária também diversificada, poderiam produzir alimentos "balanceados" para a famÃÂlia e para os animais, além de ingressos em dinheiro, durante os 365 dias do ano. Com esta medida, tão elementar, porém altamente eficaz, tornar-se-iam menos dependentes do crédito rural e menos vulneráveis a outros fatores externos (clima, mercado, pragas , etc.). Soluções pragmáticas, similares àdiversificação produtiva, deveriam ser enfatizadas nas escolas agrotécnicas e faculdades de ciências agrárias, em vez de esperar que os economistas do Banco Central ou os parlamentares do Congresso Nacional resolvam os problemas econômicos dos agricultores. É preferÃÂvel eliminar esta causa da excessiva dependência do crédito do que aliviar os seus sintomas ou conseqüências, utilizando artificialismos compensadores da falta de diversificação.
3. Paradoxalmente, enquanto se queixam da insuficiência de recursos, muitos agricultores superdimensionam e mantêm na ociosidade elevados investimentos em terra, maquinária e instalações que produzem com baixos rendimentos e permanecem sub-utilizadas durante uma grande parte do ano.Se os produtores formassem grupos para executar e utilizar em conjunto alguns investimentos (aqueles que são de alto custo e que são utilizados com baixa freqüência), poderiam reduzir esta distorção que incrementa, desnecessariamente, os seus custos fixos. Com os recursos obtidos graças a tal "enxugamento", poderiam adquirir os insumos que necessitam (mas que deixam de comprar porque não dispõem de dinheiro) para aumentar os rendimentos e reduzir os custos por quilo produzido. Idêntico problema ocorre com os animais; os pecuaristas geralmente possuem uma excessiva quantidade de animais mal alimentados, em vez de tê-los em menor número, porém bem alimentados e, conseqüentemente, mais produtivos. Estas sub-utilizações não ocorrem por falta de decisões polÃÂticas nem por culpa do colonialismo ou do neoliberalismo, mas sim porque os agricultores não foram formados nem capacitados para praticar o associativismo, intensificar a produção e melhorar a administração das suas propriedades; outra vez, a causa do problema e a sua solução não estão no Ministério da Fazenda, mas sim no sistema de educação rural, formal e não formal.
4. Os produtores rurais mais pobres são os que produzem espécies de baixa densidade econômica que, coincidentemente, são consumidas pelas famÃÂlias mais pobres, como, por exemplo: batata inglesa, mandioca, batata doce, abóbora, chuchu, milho, arroz, feijão. Produzindo estas espécies consumidas pelos pobres, mesmo que os agricultores fossem eficientes e obtivessem altos rendimentos por hectare, teriam ganhos muito limitados, pois essas culturas, para proporcionarem uma melhor renda, necessitam de uma grande escala de produção, vantagem que os pequenos não possuem. Conseqüentemente, é necessário capacitá-los para que produzam alimentos diferenciados, mais sofisticados e de maio r densidade econômica, como, por exemplo: produtos orgânicos ou hidropônicos, hortaliças cultivadas sob plástico para vendê-las fora de estação, frutas, flores e plantas ornamentais, cogumelos, aspargos e outras hortaliças mais nobres, mudas de hortaliças e de fruteiras, animais menores, mel, peixes, frangos e ovos "caipiras", condimentos, plantas medicinais, etc.; e, oxalá, vendê-los com algum valor agregado. Com tal reconversão produtiva, deixariam de vender muito ganhando pouco e passariam a vender pouco ganhando muito. A correção desta ineficiência deverá ser ensinada pelos agrônomos e zootecnistas diretamente nas propriedades rurais, ao invés de continuar pedindo que os economistas do Banco Mundial e do FMI a resolvam lá em Washington.
5 e 6. Tanto na aquisição dos insumos como na venda dos seus excedentes, os agricultores atuam individualmente. É devido a esta falta de espÃÂrito e exercÃÂcio associativo, e não tanto por culpa da globalização ou do FMI, que eles adotam procedimentos totalmente contrários aos seus interesses, como, por exemplo: na compra dos insumos os adquirem no varejo, com alto valor agregado, do último elo da cadeia de intermediação; entretanto, na comercialização dos seus excedentes, dão um giro de 180 graus e fazem exatamente o contrário, pois os vendem no atacado, sem nenhum valor agregado, ao primeiro elo da cadeia de intermediação.O espÃÂrito de cooperação e solidariedade e a prática do associativismo - necessários para que os próprios agricultores possam reverter essa dupla distorção - é necessário ensinar às crianças nas escolas fundamentais rurais; em vez de continuar culpando a OMC ou aos paÃÂses ricos que subsidiam e protegem os seus agricultores. Sejamos objetivos e realistas, os elevados preços que os agricultores pagam na compra dos insumos e os baixos preços que obtém na venda das suas colheitas se devem, em grande parte, àexcessiva intermediação; e esta, por sua vez, se deve ao fato de que os nossos agricultores não foram formados nem capacitados para assumir uma maior fatia da etapa rica do agronegócio. Em vez de mendigar que os supermercados, as agroindústrias e os intermediários paguem preços mais justos pelas suas colheitas, os agricultores deve riam exigir que o sistema educativo rural ensine, a eles e aos seus filhos, como poderiam organizar-se para diminuir a excessiva intermediação na venda dos seus produtos.
Esses seis são os principais problemas, solucionáveis pelos próprios agricultores, que com maior freqüência afetam a grande maioria deles; essas são as principais causas elimináveis que provocam esses problemas e essas são as soluções possÃÂveis de ser adotadas. É fácil constatar e concluir que os problemas, as causas e as soluções estão principalmente nas propriedades e nas comunidades rurais, nos três nÃÂveis da educação agrÃÂcola formal e nos serviços de extensão rural. Não vale a pena perder demasiado tempo buscando-os em Bruxelas, Genebra, Washington ou Tóquio. Se o sistema educativo proporcionasse às famÃÂlias rurais, tão somente, as competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) de que necessitam para corrigir apenas estas seis ineficiências, elas mesmas o fariam, reduziriam os custos por quilo produzido, melhorariam a qualidade e incorporariam valor às colheitas, incrementariam os preços de venda dos seus excedentes, se auto-abasteceriam de alimentos, para a famÃÂlia e para os animais, e obteriam receitas durante os 365 dias do ano. Se fizessem tão somente isto, teriam maior rentabilidade, seriam mais competitivos; e, além do mais, se tornariam muito menos dependentes da ajuda dos seus governos e muito menos vulneráveis aos fatores externos que eles não podem controlar (clima, mercado, falta de crédito, subsÃÂdios e protecionismo dos paÃÂses ricos, etc). Enfim, seus principais problemas estariam resolvidos, por eles mesmos, independente do que decidam ou deixem de decidir os seus próprios governos, os governos dos paÃÂses ricos, os organismos internacionais, etc. Se é assim, por que não fazê-lo? Por que continuar "paralisando" as iniciativas dos agricultores em vez de estimular o seu protagonismo?


